ferramentas, direção de arte e subjetividade

Os alunos reunidos, já no fim do dia, juntamente com Camila Giacomeli, fundadora e administradora do Iguassu Coworking.

Recentemente (09/08) fui convidado pelo Iguassu Coworking para ministrar um curso rápido sobre Direção de Arte, aqui em Foz. Marcaram presença mais de 20 pessoas de várias localidades da região: Francisco Beltrão, Umuarama, Toledo, Cascavel, Cidade do Leste (PY) e, claro, Foz.

Das 9h às 18h foram abordados diversos aspectos que permeiam a direção de arte, desde a intenção do cliente em criar algo até todo o processo de troca de mensagens, quando finalmente chega o pedido de trabalho para o D.A.

Entre outros temas, foram comentados aspectos subjetivos – quase inconscientes – do processo comunicativo que influenciam na construção/interpretação de um layout. Qual o ambiente da mensagem? Quem são os indivíduos que emite/constrói/recebe? Considerar as diferenças para elaborar um discurso eloquente, objetivando o sucesso da comunicação do cliente ou, conforme a situação, evitar que os ruídos atrapalhem.

Outro debate abordava a importância de se entender princípios de criação para não deixar uma ferramenta limitar capacidades e possibilidades. Muita coisa foi criada antes dos programas da adobe, e entendê-los como ferramentas e não como fins ou único meio viável é imprescindível nos processos subjetivos da criatividade.

Os participantes, para criar, não poderiam recorrer a um computador. Precisavam se virar com lápis e papel.

Porém, para dar suporte a toda teoria, duas atividades foram passadas em momentos diferentes: a primeira, ainda na parte da manhã, tinha como intenção a análise, o debate e desconstrução de um projeto gráfico aleatório (cartazes, flyers e folders foram distribuídos para isso). Os alunos precisavam identificar onde a comunicação falhou (e SE falhou, de fato), identificar quais os aspectos fortes do layout e onde poderia melhorar.

Em um segundo momento, cartões coloridos, cola, tesoura, sulfite e lápis foram disponibilizados para a reconstrução das peças gráficas debatidas anteriormente, sem utilizar, em hipótese alguma, o computador (poderiam, contudo, [re]utilizar a peça original como bem entendessem).

 

Houveram aqueles mais ousados, que construíram bonecos elaborados se utilizando de quase todos os materiais disponíveis.

Haviam pessoas de diversas áreas: jornalistas, TI, estudantes de comunicação, aspirantes, diretores de arte e administradores. Observar profissionais tão diferentes interagindo entre si, debatendo possibilidades e condensando processos, questionando resultados e [re]fazendo o projeto gráfico apenas com as ferramentas fornecidas ali.

Veja aqui o conteúdo utilizado no curso e as referências que deram base para sua formatação.

 

 

 

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aulas, produção autoral e responsabilidade

Na foto, exposição dos cartazes no hall de entrada da faculdade.

O ano de 2014 se tornou um divisor de águas em minha vida profissional, pois foi quando comecei a dar aulas. Aceitei o desafio, consciente de que seria um novo ambiente com exigências e necessidades bastantes distintas do que eu estava habituado no mercado publicitário.

À frente da disciplina de Produção Gráfica no 3º semestre de Jornalismo e Publicidade na UDC, precisava transmitir o máximo possível de informação, desenvolvendo situações a fim de facilitar o acesso ao conteúdo e assimilação por parte dos alunos.

Preciso explicitar, também, uma necessidade que tenho muito clara: de debater sobre a responsabilidade que um comunicólogo assume ao estudar, aprender e compreender os mecanismos de forma e conteúdo, de [des]construção da informação e de uma mensagem. Por isso, no final do primeiro semestre deste ano decidi propor um trabalho diferente para os alunos, até um pouco distante da ementa da matéria [Produção Gráfica] que se limita ao mundo dos impressos.

Debates foram realizados em sala, dialogando entre impresso e digital, questionando, por exemplo, qual a função do impresso nos dias de hoje, como integrar ambas as formas [digital e impresso] e quais esferas de nossa sociedade sofrem com essas transformações.

Não podemos, hoje, usar o impresso sem compreendermos a dinâmica dominante entre online e offline e o papel fundamental que as mídias sociais desempenham na rotina das pessoas. Isso sem mencionar aspectos sociais, psicológicos e econômicos, imprescindíveis na estruturação e compreensão da comunicação.

Por isso, para expor essa realidade aos alunos, o seguinte trabalho foi proposto: um cartaz deveria ser criado a partir de um tema [preconceito] sorteado em sala de aula. Os alunos eram livres para criar, desde que levassem em consideração alguns pontos bastantes relevantes:

  • As imagens – foto ou desenho – deveriam ser produzidas por eles e/ou disponibilizadas online por Creative Commons;
  • Nada de nudez explícita ou violência declarada;
  • O cartaz deveria responder à quatro questões básicas, localizadas em sua base;
  • Um QR Code foi criado para cada cartaz, direcionando para um post específico em um blog criado inicialmente para este fim, complementando o tema abordado, com referências, justificativa, links de vídeos, matérias e documentários, tudo que o aluno pudesse considerar importante para fortalecer seu trabalho.

Durante o bimestre, conceitos de diagramação, layout, cores e outros aspectos da direção de arte, aliando debates sobre os temas e assessoria grupo por grupo, contribuíram para uma série de cartazes de alta qualidade – tanto em abordagem como em produção visual. Para a aluna Maria Cláudia, na época no 3º PP,

“desenvolver o cartaz retratando preconceitos foi de grande crescimento pessoal para todos da classe. Nas aulas foram discutidos os tipos de preconceitos e a melhor forma de retratá-los para impressionar o público, além de aprendermos sobre os movimentos artísticos que cada aluno terá de seguir para concluir o trabalho. O ponto mais importante é a integração e criatividade que a sala está tendo para eliminar tabus impostos pela sociedade, como homofobia e racismo. Além do cartaz com a produção de fotos ou colagens, escrevemos textos de como cada trabalho está sendo feito, desde processo de escolha do tema até a descrição de como será a fotografia impressa, que será postado num blog criado para a turma.”

Observar de perto o crescimento e aprendizado dos alunos, seus esforços para transpor limites e resolver o trabalho proposto foi, para mim, um grande incentivo para continuar lecionando e aplicando dinâmicas pedagógicas diferentes, legitimando a pesquisa, interação e questionamento constantes.

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story – resenha e opinião

Quando iniciei meus estudos sobre contação de história minha amiga Lhaisa Andria (autora de alguns livros, inclusive) já estava décadas à minha frente e, por isso, é a quem sempre recorro e busco orientação.

Graças a ela conheci o livro Story, carregado de conteúdo, informação e experiência traduzidos em palavras.

A linguagem utilizada pelo autor Robert Mckee quase se assemelha a um bate-papo informal em um café, com toques sutis de humor, broncas, manifestações indignadas de momentos de sua carreira (ou da carreira de terceiros), além de explicitar o que torna uma história, de fato, boa.

O único detalhe é que o livro é basicamente focado para roteiro de cinema, porém nada que impeça aplicar seu conteúdo em outras formas de escrita. Muito do que é dito ali, por exemplo, pode ser utilizado na criação de uma história em quadrinhos.

Deixo aqui o trecho de um filme no qual Mckee discute com um personagem interpretado por Nicolas Cage, para refletir se é tão difícil procurar inspiração para criar uma história e se não somos nós, geralmente, que estamos olhando pro lugar errado.

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fanzines – resenha e opinião

Quando ainda estava na faculdade – não faz tanto tempo – produzia constantemente, fosse eventos, fosse quadrinhos ou fanzines.

Na época, me juntei com alguns amigos para produzir uma revista, a já extinta Jump a qual não passou de uma edição que, posteriormente, se transformou em um zine com duração de quase um ano, chegando a mais de 20 edições e algumas edições especiais.

Era uma publicação gratuita não-editorial: um sulfite A4 frente e verso e preto e branco, xerocado. No início, eram jogados fora e povoavam as mesas da faculdade. Chegando próximo de seu fim, os 100 exemplares semanais não eram o suficiente.

Sempre buscamos manter nossa proposta a cada nova edição: humor, criações autorais (muitas vezes enviadas pelos próprios leitores) e possibilitar uma nova leitura daquilo que é/era considerado como produção cultural de fato. Infelizmente tivemos que parar devido ao TCC que se aproximava.

Paralelamente, criava tirinhas online e, em virtude disso, conheci pessoas incríveis (como Digo Freitas, Rafael Marçal, Rodrigo Chaves – dentre muitos outros -, com produções autorais distintas e muito boas). Infelizmente, foi outro projeto que tive que abandonar em virtude da quantidade absurda de trabalho e, admito, uma certa falta de entusiasmo.

Após muito tempo distante dos quadrinhos e de qualquer tipo de projeto pessoal, retomei estudos e leituras sobre contação de histórias, quadrinhos e narrativas. Recentemente conclui a leitura de um livro chamado Fanzine, o qual tenho utilizado como apoio em minhas aulas de Produção Gráfica (projeto/conteúdo inclusive que comentarei em outra oportunidade pois merece tal atenção).

O livro, uma série de textos organizados por Cellina Muniz, aborda desde a subjetividade da produção zínica até sua história e possíveis origens. Um dos textos me chamou, particularmente, mais atenção: “A escrita como guerra: ética e subjetivação nos fanzines punk”. Nele, o autor Everton Moraes discorre sobre o fanzine como “o ato de dar sentido a um sentimento, uma atitude sóbria, racional e reflexiva de criar significados a partir de uma ‘explosão'” (2010, p66).

Indo além, Moraes ressalta a força bélica do zine, utilizando a palavra como arma.

O texto “Subjetividade de papel – de Tiago Régis de Lima e Luciana Lobo de Miranda” (2010, p48) fala, dentre outras coisas, sobre as possibilidades com o papel e a forma que ao criar com as próprias mãos podemos explorar. E o ato de criar é, por si só, uma poderosa expressão do ser.

O fanzine pode vir a ser, em muitos casos, um grito autêntico – de um ou de muitos -, uma arma contra os holofotes das grandes mídias ou apenas uma criação autoral. Mas mesmo como “apenas uma criação autoral” já é, pelo simples fato de existir, um chamado para além dos muros invisíveis dos incontáveis padrões que permeiam/limitam/corrompem/dogmatizam nossa rotina, nossos costumes e crenças.

Fanzines: Autoria, Subjetividade e Invenção de Si. / Cellina Rodrigues Muniz. [organizadora] – Fortaleza: Edições UFC, 2010.

 

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o futuro do storytelling – resenha e opinião

Desde pouco antes de 2013 vimos o storytelling se popularizar pela internet, principalmente na área de comunicação.

Minha curiosidade me incentivou a buscar por fontes consistentes e não que morressem em um post de algum auto-denominado guru do storytelling. Fiz um curso de Transmedia Storytelling com o pessoal do Atlas Media Lab (ainda morava em São Paulo na época e recomendo que quem puder e quiser, faça =), passei a acompanhar apaixonados, pesquisadores e profissionais da área, como o blog do Bruno Scartozzoni, Stories We Like, Ernesto Diniz e Maria Popova, que conheci pelas mídias sociais por acaso e participa de um blog/site fantástico, o Brain Pickings, com breves posts sobre obras, autores e projetos atuais ou antigos, transbordando referências e conteúdo de altíssima qualidade.

Porém, foi no final de 2013 que fiz um dos cursos mais significativos, indicado por uma amiga: o The Future of the Storytelling, em formato MOOC (Massive Open Online Course), pelo Iversity (tem vários cursos diferentes lá, e esse especificamente fica disponível somente até o fim de 2014, mas tem no youtube também). São episódios rápidos, de no máximo 6 minutos, com uma linguagem acessível, agradável e identidade visual compatível com a qualidade do conteúdo, focado para contadores de histórias iniciantes.

O curso em questão, além de fazer uma excelente introdução sobre storytelling, aborda processos de contação de história utilizados hoje em dia como séries de tv, cinema, games e chega a comentar sobre o transmedia storytelling. Vários produtores e autores também marcam presença no curso, compartilhando suas experiências e conhecimentos com o público, como Cornelia Funke e Robert Pratten. Foi neste período (o curso durou 8 semanas) que expandi minhas fontes de conteúdo e interesse sobre o tema.

Além disso, todo final de semana havia um desafio, o qual deveria ser concluído durante o fim de semana (não era obrigatório) e apresentado na segunda seguinte no fórum do curso, onde os próprios alunos comentavam os trabalhos uns dos outros gerando uma troca quase incessante de experiências.

A experiência proporcionada pelo curso contribuiu bastante para compreender um pouco mais o storytelling, sua origem e suas possibilidades, entendendo-o não como uma ferramenta parte de uma estratégia, mas como uma característica do ser humano que se comunica, interage e modifica[-se] com o outro e com o meio.

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Em breve postarei a resenha de um outro livro que concluí recentemente, sobre criação de roteiros e aproveito para indicar, a quem tem interesse na área, a leitura d‘O Heroi de Mil Faces, de Joseph Campbell.

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o oceano no fim do caminho – resenha e opinião

Sempre gostei de histórias, escritas ou animadas, reais ou imaginadas, principalmente das que me levam a esquecer de comer, ir ao banheiro ou de abstrair todos os ruídos ao meu redor. Se minha memória não me engana, li em um dos livros de Cornelia Funke (autora da série Mundo de Tinta), um de seus personagens dizer “quando você lê, pode viver mil vidas ao invés de apenas uma”.

Pois bem, tentei resistir mas não consegui e cedi ao charme de Neil Gaiman, mais uma vez. O Oceano no Fim do Caminho se tornou uma de minhas histórias favoritas pelo simples motivo de me fazer esquecer de minha vida e ser o personagem, a propósito sem nome. Uma curiosidade sobre a obra: só 3 ou 4 personagens em toda a história possuem um nome, o que não afeta em hipótese alguma seu desenvolvimento.

Gaiman orquestra com maestria as palavras, embala nossos pensamentos ao ponto de fecharmos o livro para aí então notar os olhos ardendo e algumas lágrimas caindo.

Já li um bocado em minha vida e são poucos os autores de fato que conhecem não apenas as palavras em sua superficialidade visual e fonética, mas tudo o que elas podem despertar, seu poder, sua essência, aquilo que escondem por trás de sons e desenhos grafados.

O mundo da história bebe de nossas próprias referências, não está ali escrito mas está ali para ser sentido. Com palavras-chave, Gaiman desperta mundos simbólicos do nosso inconsciente e complementa a história com nossas próprias referências, apenas enriquecendo a experiência da leitura.

Conforme o livro terminava, as lembranças da história recém lida se desvaneciam, assim como quando crescemos e se recordar de tempos remotos acaba por se tornar uma tarefa árdua e confusa.

Concluí a leitura com a sensação de estar cada vez mais próximo de mil vidas.

 

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Sobre mídias sociais e direção de arte – parte 1

As mídias sociais, com suas várias postagens diárias, despertaram a necessidade da criação de conteúdo com uma frequência absurdamente maior do que tudo já feito na área de comunicação.

Não precisamos ir longe: apenas pense nos mais de 1bi de usuários do facebook publicando diariamente. Agora expanda isso para outras mídias sociais, como twitter e pinterest, por exemplo. Torna-se praticamente impossível monitorar em tempo real tudo o que é produzido e acumulado atualmente.

Considere uma marca hipotética que tenha um twitter e um facebook, o pacote básico, com 2 posts diários por canal. Isso nos dá 740 postagens por ano para cada um deles, alcançando um total de 1480 posts. Vale ressaltar que é preciso produzir texto + imagem (até pouco tempo twitter era apenas texto) sempre guiado pelo que a marca é e dependendo de aprovações, sem perder a originalidade.

Manter um nível adequado de qualidade sempre alto por 365 dias com um grande volume de publicações para diferentes canais torna-se um desafio para toda a equipe, de quem produz até quem aprova. Imagine uma agência que atende não uma mas 2, 5, 20 marcas com esse mesmo nível de necessidade.

Dessa maneira pretendo desenvolver uma série de posts debatendo sobre os diversos desafios do diretor de arte de mídias sociais, considerando conhecimentos, equipe, canais e feedback de clientes.

1. parte: Introdução 

2. parte: O ambiente do usuário de mídias sociais

3. parte: O ambiente do diretor de arte de mídias sociais

4. parte: Creative Commons

5. parte: Pesquisa de imagens

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