lá estava ele

Tinha certa inveja dele, daquele jeito fácil de ver o mundo, resolver as coisas.

As vezes parecia outra coisa, do tipo de coisa que todo mundo tem vergonha de falar mas sente. Aquele tipo de sensação que corrói cada pedacinho do seu ser em um tempo desesperadamente lento.

Veja, eu gostava dele. Gosto, na verdade. Muito. Ele me dá certo receio as vezes mas, bem de vez em quando, consegue provocar aquele arrepio gostoso que sempre pensamos que jamais sentiremos de novo.

Na maior parte do tempo, ele só me atrapalha. O arrepio se torna calafrio, o sono se torna o teto do quarto, o suspiro desaparece e a falta de ar toma a frente, os pensamentos se embaralham e se misturam e se confundem e quando percebo já estou rodeado de vácuo, de distância e… dele.

Aquele arrepio gostoso que percorre todo o corpo se revela, depois de certa idade, um monstro gigantesco que antes nos cutucava com a ponta de um galho. Quando crescemos, ele declara estar cansado do galho e decidido, usa suas mãos, gigantescas, com consistência de fundo de gelatina e nata e nos envolve sem controlar sua força.

Podemos gritar, pedir para parar e até tentar diálogo, mas ele insiste em nos acompanhar, nos levar onde bem entende. Acontece que seu tamanho – pouco menor que a imaginação de uma criança – e sua dureza – pouco mais resistente que gente que acha que preconceito é opinião – não o deixam entrar em qualquer lugar, e como ele decidiu sem nosso consentimento que deve, obrigatoriamente, nos levar pra todos os lugares, deixamos de ir, de fazer, de gostar e passamos a aceitar, em silêncio, a sua companhia.

Quando nos damos conta, vemos que ele é bem dócil, mas difícil de domar. Gosta de ser alimentado mas não na hora que quer, mas quando queremos muito algo.

Sacia sua sede de nosso suor, de nossas lágrimas, se deliciando com nossa exaustão em tentar compreendê-lo, sem sucesso.

Eis que, quando decidimos ignorá-lo, fingir que não está ali mesmo sabendo que está (afinal, sua pele é de fundo de gelatina e nata, não é nada agradável mesmo sendo bastante fresco no verão), ele é tomado por uma crise de identidade.

Como é possível viver sem ele? Onde está o sentido de tudo em sua existência se ele não nos guiar? Como conseguiremos dar um passo sem cair, se ele não estiver nos segurando? E se… e se gostarmos de viver sem ele? O que será de sua existência?

Então ele se balança, de um jeito que revira seu estômago, aperta suas costas, congela seus ossos, faz chover nossos olhos.

Ainda nada satisfeito, pega todas as nossas ideias, pensamentos e lembranças, desorganiza tudo, troca as etiquetas e quando, perdidos, tentamos falar, dá um nó em nossas línguas e chuta nossos dentes.

Ele sabe que fazendo isso, machucamos outros, nos machucamos, e quando, desolados e descontentes, olhamos pra ele, ele nos sorri gentil mas com uma satisfação sádica e obsessiva em seus olhos.

Nesse momento, em que ele acreditou que eu voltaria para os braços dele, dei as costas e decidi, sem emitir um ruído sequer, a deixá-lo sozinho, mesmo sabendo que isso não o afastaria.

Ainda consigo ouvir suas pragas, sentir as palavras enrolarem na língua e o estômago revirar de uma forma parecida com um furacão, mas sei que se deixar ele sozinho por um tempo, ele vai acalmar, e daí poderemos conversar de novo, sem riscos.

Não tem como negar, era confortável deixar que ele me levasse, pois ele sabia bons caminhos, seguros, certos, sem dor. Não precisar tocar os pés no chão era, as vezes, um alívio, mas me fez esquecer o quão duro ele é.

E agora, descalço, machucado e decidido, me pergunto: quando foi que ele me tomou pela mão e decidiu, sozinho, o que era melhor pra mim?

 

 

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Carta ao meu passado

Você errou.

Eu sei.

Admitir não muda nada.

Acusar também não.

Ao menos você sabe o que errou?

Sim.

E você se arrepende?

Acredito que se arrepender seja o mesmo que desejar não estar onde estou, e não ser grato por tudo que tenho. Então… não. Não me arrependo.

Você esforça uma sensatez, mas peca lamentavelmente em camuflar seu medo.

Eu sei.

Sabe de tudo, pelo visto.

Sim.  Mas não quer dizer que tome as atitudes que seriam certas. A emoção acaba falando mais alto e quando vejo…

A sorte está lançada, não é mesmo?

Exato. E se torna uma tarefa cruel desdizer.

Então você se arrepende.

Tentar explicar o que as palavras tentaram debilmente representar não é se arrepender. Posso me arrepender da forma que falei, de como me manifestei, sim, mas não quer dizer que me arrependa do que fiz, entende? É complicado.

Bastante. Ainda mais que você tem conhecimento de coisas que aconteceram que eu ainda vou passar…

Sim. E poderia dar todos os conselhos, mas você com certeza cometeria os mesmos erros.

Essa é a fé que tem em mim?

Esse é o tanto que conheço nossos medos, que as vezes se vestem de coragem e nos enganam.

Sabe tudo mesmo.

Olha, essa é uma das coisas mais chatas em você, sabe, de sempre querer ficar com a última palavra, a mais sábia e absoluta de todas. Silêncio pode ser bom. Tempo também, sabia?

Eu sei, mas quem disse que consigo? Olha, tenho tudo que sempre desejei, não me falta nada. E quando cheguei aqui, de repente veio a noção de como tudo se evapora, sabe, vai embora muito fácil, mesmo que tenha sido muito difícil pra chegar.

É aí que você se dá conta de que não sabia nada, e que não possui coisa alguma, e de que nem mesmo o que sente pode controlar.

E é aí que você chega, querendo salvar alguma coisa, não é?

Não. Apenas queria conversar com você, pra não cometer os mesmos erros lá pra frente.

Então-

Isso. Continuo a mesma coisa que você, só que sem tudo o que você sempre quis. Você deixou o medo te guiar, não soube aproveitar a felicidade quando ela estava ao seu lado, ali, te tocando com os olhos. Você deixou esse medo imbecil dominar cada centímetro do seu corpo, cada segundo do seu pensamento, cada palavra que dizia… e terminou-

Com você aqui.

Sim.

E será que consigo fazer diferente?

Não sei.

Não é mais sabe-tudo então.

Continuo sendo, pois sei que não posso saber.

Mas mesmo assim, veio até aqui. Não seria você se não tentasse, não é?

É o preço de não ser compreendido nem por você mesmo. Aquela sensação de completude que se rompe no silêncio, no exílio, na indiferença não-declarada.

Não sei se concordo. Você sente falta…

Do que perdi? Sim. Todo dia. Não tem um minuto que não sinta.

Valeu a pena?

Ter medo? Jamais. Deveria ter resgatado aquela coragem dos meus 18, mas ela foi vendida em algum momento em horas de trabalho, ou se perdeu e um ponto de ônibus ou pior… foi levada com a carteira aquele dia.

Aquele dia… você realmente foi fundo no poço. Já deixava o medo te guiar antes mesmo de chegar aqui.

Admitir não resolve nada.

Nem tampouco acusar.

E o que resolve, afinal?

Vim aqui na esperança de obter essa resposta mas pelo visto, perdi meu tempo, assim como você está perdendo agora, com esse medo. Tanta coisa pra fazer… e você prefere pensar e viver o que não aconteceu e acaba não vivendo nada.

Precisei me focar em tantas coisas que fiquei tempo demais sem focar em mim mesmo.

E se perdeu de você mesmo.

Quebrei.

Não seja imbecil. Não tem como estar quebrado. Tem só que descobrir um novo jeito de montar.

É fácil pra você falar, já que vê de mais longe.

Continuo vendo a mesma coisa, apenas de um jeito de diferente. É impossível nos distanciarmos de nós mesmos. Veja onde estou. Onde você está.

Se olhar ao redor funcionasse, já teria resolvido muita coisa.

Esse é o problema. Você não tem que olhar ao redor, mas se movimentar, sair do lugar, chocar com outros. É nesse choque que a mudança acontece.

Mas o choque pode machucar.

Mas pode também te envolver.

Entendi.

Mentira. Você apenas está cansado disso tudo, confesse.

Também. Mas, talvez, eu queira entender. Talvez eu queira que toda essa culpa caia dos meus ombros, que o medo desapareça em um estalo e que eu consiga sentir toda essa felicidade. Talvez eu esteja tentando, mas no escuro… tudo que podemos é enxergar silhuetas e ouvir respirações.

Se abrir os olhos, tenho certeza que talvez, só talvez, consiga evitar o que eu não consegui.

 

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fanzines na fronteira – registro V

oi pessoal!

após dois meses, cinco turmas e 15 encontros, a parte inicial do projeto – de aplicação – chegou ao seu fim.

foram 2 escolas, 3 professoras e pouco mais que oitenta alunos participantes que, juntos, conseguiram criar e produzir algo em torno de 50 fanzines.

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vale ressaltar que o projeto incentivou vários desdobramentos, entre eles:

  • uma das professoras produziu um artigo sobre a experiência com a turma de superdotados;
  • outras professoras de uma das escolas gostaram da experiência, e uma das voluntárias do projeto “passou adiante” sua experiência;
  • outros zines foram produzidos e distribuídos em outras atividades de ambas as escolas, em um evento de halloween e na inauguração de um espaço de artes em outra;

de agora em diante, o projeto será de organização e análise dos dados coletados para, enfim, escrever a dissertação.

obrigado a todos que acompanharam esses breves relatos. assim que possível, novidades serão comentadas por aqui. c:

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fanzines na fronteira – registro IV

oi pessoal! semana passada começamos mais uma turma no projeto, dessa vez de artes, com alunos entre 15 e 16 anos.

a professora incentivou explorarem o tema “américa latina”, e os resultados foram muito legais. alguns dos temas escolhidos:

  • o corpo da mulher latino-americana
  • a corrupção na libertadores
  • árvore genealógica das instituições da fronteira
  • as diferenças que compõem a américa-latina

IMG_20151022_085753899não são, ainda, temas definitivos mas, sim, o início de um debate muito mais profundo. cada grupo foi assessorado particularmente, questionando-se a relevância do tema para eles enquanto grupo e indivíduos, para o projeto e para o ambiente deles.

nesta semana, teremos o segundo encontro, onde os protótipos dos zines serão levados, debatidos e encaminhados para sua conclusão.

até a próxima!

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fanzines na fronteira – registro III

oi pessoal!

ontem, segunda (19), concluímos mais uma parte do projeto, com uma turma de superdotados. a professora voluntária gostou muito do resultado, também chamando atenção da pedagoga responsável da escola, ao ponto de quererem aplicá-lo novamente nesta turma.

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foram dois zines produzidos: o primeiro, por uma aluna, 12-13 anos, com deficiência visual. com 30% de sua visão, a professora a incentivou a criar um zine como ela percebe o mundo e, dessa forma, o resultado foi impressionante, com uma folha A3 toda desenhada com arabescos, letras grandes, falando sobre música, poemas, focando na temática “não desista de seus sonhos”. a aluna também se sentiu a vontade para convidar uma colega para ser co-autora, ideia apoiada pela professora.

o segundo zine, de um aluno próximo de seus 14 anos, partiu de um comentário em sala de aula que um colega fez: filósofos são todos vagabundos. a fim de provocar o questionamento em seus colegas ele decidiu, assim, desenvolver um zine que falasse de grandes pensadores e sua importância.

IMG_20151019_133301581na imagem ao lado é possível observar, junto do zine primata, um dos estudos realizados entre aluno-professora, afim de amadurecer o tema e a razão de sua escolha.

ambos os estudantes pensam em continuar com suas produções e distribui-las em sala de aula, o que tomo a liberdade de afirmar que tornaria a experiência zínica mais profunda, não se fechando apenas em sua criação, mas encontrando parte de seu sentido na distribuição.

esta semana ainda começaremos outras duas turmas, ambas de literatura, onde a produção zínica terá importância na produção de histórias.

obrigado a todas e todos que tem acompanhado o projeto! em breve, mais novidades. c:

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fanzines na fronteira – registro II

oi pessoal!

semana passada concluímos uma das turmas participantes do projeto.

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a professora voluntária, em conversa informal após a aula, disse ter gostado do resultado, da participação e engajamento dos estudantes. no total, foram sete zines produzidos, na disciplina de inglês, entre alunos de 13 e 15 anos. os temas iam desde música brasileira no estrangeiro até a relação turismo-moradores da fronteira.

no último encontro, em uma roda de debate, todos precisaram relatar sua própria experiência, processos criativos e como abordaram seu tema. durante a apresentação, alguns alunos explicaram que precisaram conversar com turistas, outros trouxeram reflexões importantes, questionando a indústria do turismo.

IMG_20150930_083908955houveram ainda aqueles que debateram a relação entre funk e religião, em um complicado processo de auto-questionamento, já que no mesmo grupo existiam fãs de funk e religiosos. contudo, os alunos impressionaram ao debater de forma saudável e entregar um zine que questionava ambos os temas.

na semana que vem, mais uma turma conclui o projeto e começamos com outras duas, lembrando que os temas a serem trabalhados são escolhidos pelxs professorxs, de acordo com sua ementa/plano de ensino.

é importante salientar que, após a experiência, as professoras participantes entregarão um relato da experiência, fortalecendo a pesquisa e trazendo a experiência daqueles que vivem o chão da escola, onde a realidade acontece.

até breve! o/

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fanzines na fronteira – registro I

oi pessoal!

pra quem tem me acompanhado nas últimas semanas, sabe que estou com uma pesquisa no mestrado que busca aplicar os fanzines em sala de aula, como potencial instrumento pedagógico.

nesta semana, na segunda (21) e quarta (23), iniciamos o projeto em salas de aula, em uma escola estadual, com turmas do 9º ano.

quadro-zines

na segunda, junto de uma turma de superdotados em uma escola estadual, debatemos sobre o tema escola (sugerido pela professora voluntária), e como é possível, através do fanzine, abordar o assunto. tanto a professora quanto os alunos abraçaram a ideia e sugeriram diversas abordagens. em determinado momento houve, inclusive, a sugestão de mudar o tema de acordo com as peculiaridades de cada aluno.

era perceptível como o diálogo horizontal permitiu aos envolvidos se conhecerem um pouco mais, em um tom mais descontraído, porém focado em debater o tema e suas possíveis abordagens.

já, na turma de quarta, a professora voluntária leciona inglês e propôs, aos alunos, temas relacionados com o conteúdo programático da disciplina.

grupos e temas decididos, o debate se tornou intenso, questionando-os do quanto estavam confortáveis com suas escolhas e de onde partia o interesse naquele tema. perguntas que os incentivavam a se aprofundar em pesquisa e reflexão foram feitas durante toda a monitoria, tais como “qual a relevância do tema para você? para quem vai ler? para a área do tema abordado?” e ainda “onde soube disso? qual o fundamento de sua afirmação? pretende pesquisar em várias fontes para obter opiniões diferentes?”.

as turmas e professoras voluntárias se mostraram bastante interessadas e empolgadas neste primeiro encontro, com boas perspectivas para a continuidade do projeto, o qual ainda compreende mais dois encontros: um com o protótipo e adequações; e outro com uma roda de conversa para os alunos falarem de sua experiência e trocarem entre si os fanzines prontos.

até semana que vem!🙂

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