impasses de um monólogo não declarado

se soubesse por qual razão insistia tanto, provavelmente pararia. ali mesmo.

não daria mais continuidade a uma tentativa vã de conhecer um mundo que se fecha em si mesmo, um lugar onde o preço para ingressar é a própria individualidade.

qual o sentido em segregar vontades? selecionar experiências com base em expectativas tolas de um passado infeliz? por que uma busca insistente por algo que aconteceu no auge da embriaguez de uma madrugada qualquer?

não sabia a resposta, de coisa alguma, por isso não parava.

tudo bem?

têm pessoas que sabem fingir, mas há pessoas que insistem em quebrar a ordem lógica do mundo e se fechar não em si mesmas mas para si mesmas, como se não existisse nada além de sua própria poeira umbilical.

tô bem.

eu não estou bem, obrigado por se preocupar pensava consigo sempre que importunava o narcisismo alheio, o qual rompia sua expectativa daquilo que julgava poder-vir-a-ser uma boa conversa.

o problema de se tentar dialogar com pessoas que pensam estarem sempre à frente de um espelho é perceber que vivemos em uma constante articulação de infinitos monólogos que tentam se dialogar.

preciso ir agora voltar pra mim mesmo de onde jamais deveria ter saído

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quanto cobra?

acendeu outro cigarro.

nunca acreditou no que falavam, sobre o poder dele de acalmar os nervos. mas agora, bem, havia se tornado sua salvação. cigarro era muito mais barato que terapia e gastar era a última coisa que queria fazer no momento.

todos vamos morrer, afinal, pensava enquanto soprava fumaça lentamente, sentindo prazer com o gesto. que seja do meu jeito, então.

caminhava lentamente e sentia as ocasionais lufadas de ar gelado em contraste com o peito, aquecido pelo cigarro inalado recém aceso. observava os carros, raros naquela hora da madrugada, com seus faróis altos, curiosos pelo preço do programa. hoje não estou atendendo, desculpe, respondia sempre que era abordado.

as vezes, só as vezes, pensava em dizer sim. mas logo a ideia era substituída por outra clichê, desgastante e vulgar ideia do amor romântico. o que valia era o papo, o charme, o jogo da conquista, arriscar algo tão valioso que nem nome em língua falada tinha. não é que não sentia tesão. sentia, mas o que encontrava nunca saciava. nunca era suficiente.

outro carro de farol alto reduziu a velocidade conforme se aproximava.

– quanto cobra?

refletiu por uns instantes. pensou nas contas vencidas, nas que estavam por vencer. lembrou do maço no bolso, prestes a acabar. pensou no algo tão valioso que nem nome em língua falada tinha. foda-se. pensou que só hoje, só aquele, não teria problema.

– 100.

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cultura da participação – resenha e opinião

Quando me encontrei com o livro A Cultura da Participação, no começo de 2013, não esperava que fosse lê-lo apenas 2 anos depois, já não mais trabalhando com mídias sociais diretamente e, sim, enquanto professor em um curso de comunicação. No entanto, seu conteúdo ainda é bastante atual.

Clay Shirky discorre sobre o excedente cognitivo – de maneira quase extremamente positivista. Seus textos são ao meu ver, rasos. É perceptível o receio do autor em ir a fundo de verdade em seu debate, já que se utiliza de algumas comparações arriscadas e não parte de nenhum conceito anterior de cultura. Contudo, e isso considero um esforço válido, seu conteúdo é acessível e suas analogias e exemplos são de fácil absorção, partindo de uma estrutura a fim de explicar situações separadas por séculos, por exemplo.

Buscando validar sua teoria, ele reúne uma série de acontecimentos ao redor do mundo de diversas épocas diferentes, traça um paralelo ou, muitas vezes, extrai daquilo apenas o que precisa e, assim, coordena sua argumentação. Isso fica evidente quando discorre sobre o caso do Gin Craze, na Londres do século 18, traçando um paralelo (esse é um dos pontos que considerei arriscado e anacrônico em sua essência) com o tempo livre gasto em frente a televisão no pós-guerra.

No mais, sua teoria é necessária, interessante e poderosa, porém senti falta, em todo o livro, de algo a mais, de uma evolução do conteúdo além de relatos comprovando a existência do excedente cognitivo. Mais do que discorrer sobre acontecimentos que “deram certo”, ele poderia ter debatido o tema mais ampla e realisticamente, não tão positivista como se apresenta a quase todo instante.

Shirky deixa transparecer um espírito sonhador e acredito que essa seja a essência de seu livro. Vale a leitura, desde que se faça leituras complementares, buscando conceitos diversos de cultura e outros teóricos da comunicação que tratam do mesmo tema de maneira mais concreta.

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sobre nossa cidade, cultura e singulares

Quando falamos em Foz do Iguaçu, precisamos especificar de qual delas: a Foz para os turistas ou a que nós, cidadãos iguaçuenses, vivemos.

O discurso local mais comum é o da [co]existência de grande representatividade cultural e várias etnias vivendo em paz. No entanto, nas ruas é bem diferente.

Nossa cidade carece de investimentos em cultura como política pública de desenvolvimento, com interesse direto no benefício para a população. E quando digo cultura como política pública não falo somente em eventos e ações sazonais, sejam públicas ou privadas, mas sim de incentivo e otimização de espaços públicos por parte do governo, como museus, bibliotecas, acesso à internet wifi em praças, espaços onde as pessoas possam visitar, conviver, produzir e interagir.

Apenas para citar um exemplo de Foz: temos uma biblioteca que fecha às 14h, não abre aos fins de semana e sua infraestrutura precisa urgentemente de adequações. Onde estão as ações de incentivo para se frequentar tal espaço? E, indo além, onde estão os projetos focados em bairros e populações afastadas do grande centro?

Acredito que há, em nossa cidade, um distanciamento tanto por parte do governo como da população, onde ambas as forças não assumem suas responsabilidades e se omitem. Porém, existem aqueles que buscam ir além de apenas sobreviver a esse mar de ociosidade cultural e desenvolvem projetos que são pequenos respiros para quem tem a oportunidade de vivê-los: revistas acadêmicas sem fins lucrativos, grupos de teatro, mostras de cinema alternativo, entre alguns [ainda poucos e tímidos] movimentos, surgindo em diversos pontos da cidade.

Ao meu ver, estamos longe de ser a Foz que falam que somos, e reduzir esse abismo, entre a Foz-simbólica e a Foz-real, é como enxergo a essência desses pequenos respiros. Precisamos assumir nossa responsabilidade como cidadãos e entender, atuar, produzir, interagir com nossa cidade e todas as suas diferenças, com todo o potencial que ela tem para oferecer.


texto originalmente publicado na edição de outubro/2014 da revista 100 Fronteiras, de Foz do Iguaçu.

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morte

Meu primeiro contato com a Morte foi aos 4 ou 5 anos de idade.

A lembrança é ainda nítida, do piso de madeira lustrado, do móvel antigo com uma tv preto e branco, das prateleiras abarrotadas de enciclopédias cuja única função era acumular poeira, do sofá velho onde tantas vezes me sentei pra folhear as revistas em quadrinhos do meu tio.

Mas nenhuma memória é tão poderosa quanto aquela, das pessoas andando, cabisbaixas, ao redor de um grande caixão, naquela mesma sala da estante, da tv e dos quadrinhos.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo e não entendia por qual razão colocaram minha vó naquela grande caixa. Como toda criança curiosa

            porém insistentemente chamada por adultos como intrometida

caminhei pela sala sem entender nada. Por que a vovó está numa caixa? E a resposta veio seca Por que ela morreu. Não me lembro, até hoje, de quem foi a frase mas lembro de ser retirado no mesmo momento da sala e, então, o abismo da memória se colocar no caminho e mais nada daquele dia vir à mente.

Aquela pergunta feita por mim até hoje contrasta com outra imagem que tenho de minha vó materna. Alguns dias antes, na cozinha daquela mesma casa da estante, da tv e dos quadrinhos, me recordo de uma palmada na bunda seguida de um vá brincar menino. Mais uma vez, a curiosidade confundida com intromissão, me leva ao quintal, com meus primos mais velhos e desinteressados nas brincadeiras de uma criança de 4 ou 5 anos.

Levou muito tempo para a Morte aparecer em minha vida novamente, quase vinte anos. Um tio, o qual me deu meu terceiro emprego. Seu coração falhou, mas me lembro que sua opinião não falhava nunca.

Um outro tio, em um acidente de carro. Poderia ter sido mais próximo dele, mas adolescentes parecem não ter tempo para qualquer coisa que não seja seu próprio mundo.

Depois minha bizavó, já com idade avançada.

Um amigo da época da faculdade, mesmo distante estávamos razoavelmente próximos.

Com o tempo, aceitei a Morte não mais como uma fatalidade, mas como parte de mim, como parte de cada ser. Nossas células morrem todos os dias. Nossas ideias também. Memórias, tecidas no vácuo de nossas emoções, morrem no precipício do Tempo, não o mecânico, do relógio. Mas o Tempo ditado pelo invisível.

Todo dia morre um pedaço de mim, quando a impotência toma controle e esbarra minha vontade nos muros da burocracia. Quando vejo dor. Quando causo a dor.

Mas, na contramão do desespero, a morte não é o fim. É parte de um ciclo sem volta, do

            agora

que insiste em fugir de nosso controle.

E sempre que me vejo naquela sala, da estante, da tv e dos quadrinhos, lembro que aquela história não terminou, mas continuou na minha. Aquela vida morreu à luz de tantas outras, e a Morte, implacável e dona do tempo, deixa sempre seu rastro nas lembranças que se alteram com a retórica da vida adulta.

A Morte não é intrometida, ao contrário do que muitos adultos pensam sempre que Ela insiste em se mostrar mas, sim, curiosa.

            Por que a vovó está numa caixa?

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pressa

Vejo passos, acelerados, em busca de um ponto final porém encontrando apenas

sentenças

vazias e incompletas, deslumbradas em sua própria existência.

Semáforos no vermelho ignorados quando claramente querem ser notados, a fila no banco pedindo paciência recebendo apenas suspiros intolerantes, a senhora com problemas no joelho e sacolas pesadas, deixada para trás. Lerda. Preciso chegar logo.

Onde?

Vejo a pressa.

A todo momento uma enxurrada de desinformações, de frases opacas de sentido, enveredadas nas falas e nos gestos, fluídas nas relações. Vejo desafeto. Por que estão no meu caminho? Preciso chegar logo. As relações não são mais vividas, mas esperadas. Não esperava isso vindo de você. As expectativas são a nova moeda de troca, onde não importa o que vai acontecer, mas a decepção a ser experimentada de uma relação sequer iniciada. Me feriram. Não. Mas vão, tenho certeza.

O novo combustível da humanidade: a decepção insaciável, saboreada diariamente a cada momento de frustração quando a própria pressa não consegue suplantar o tempo. Não o do relógio, inventado pelos homens, mas aquele, o tempo, que quando chega não temos como fugir.

O agora não existe, nunca existiu. Existe só o Antes de você as coisas eram diferentes. Depois de você as coisas mudaram. Antes buscava a decepção, depois me tornei ela.

A tentativa vã de sanar as próprias expectativas de um futuro já conhecido. Viver a mesma frustração do outro.

Goze logo, tenho que acordar cedo.

A busca incessante por mudar um final do qual se desvia apenas os olhos, mas não os passos.

Sou a pressa.

Preciso atravessar a rua mas o sinal não abre. A fila não anda. Lerda. Goze logo, preciso acordar cedo.

Todos os dias.

—–

revisado por Luiz Henrique Dias.

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sobre coisas legais no youtube

A internet é um paraíso de coisas legais, isso todos estamos cansados de saber. Porém, o que muita gente não sabe (e muita mesmo) é a quantidade de conteúdo bacana e gratuito que tem por aí.

Já comentei aqui sobre o fabuloso documentário em seis partes, O Poder do Mito, de Joseph Campbell. Tem um outro, muito bom, de Marshall McLuhan, O meio é a mensagem, que estou terminando de ver para falar sobre. Porém, há uma infinidade de filmes – estadunidenses, neozelandeses, brasileiros, irlandeses – no youtube, de graça.

Deixo abaixo uma brevíssima lista de alguns filmes, alguns que gosto muito e outros que gosto pouco. =)

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Os famosos e os duendes da morte (brasileiro, 2009): assisti recentemente por indicação de uma aluna. A história é sobre um garoto do interior do Rio Grande do Sul, escapando pela internet da rotina entediante de sua cidade(zinha). Não chega a ser uma obra prima, porém vale a história, contada em uma melodia quase monótona, guardando para o seu quase-final um trunfo confuso e não tão inebriante.

50 maneiras de se dizer fabuloso (neo zelandês, 2005): o filme é divertidíssimo e ao mesmo tempo, denso. Trata sobre gênero na adolescência de uma forma delicada e apaixonante, com personagens encantadores e fortes.

Orações para Bobby (estadunidense, 2009, baseado em livro homônimo de 1995): filme produzido apenas para a TV, exibido um dia antes do oscar de 2009. Conta a história de Bobby, um garoto homossexual que sofre as consequências de uma família extremamente religiosa, principalmente sua mãe. Uma das mais tocantes cenas que já vi está em seu final, com um turbilhão de emoções difíceis de se processar.

O segredo de Kells (animação belga, 2009): queria assistir há algum tempo, até que encontrei no youtube. Doce, colorida, fabulosa em sua trilha sonora, personagens e narrativa, conta a história de um garotinho, Brendan, que vive sob a tutela de seu tio, um abade, cuja atenção é toda dedicada a construção de um imenso muro que os protegerá dos bárbaros. Brendan nunca saiu da abadia e não conhece o mundo do lado de fora, porém tudo muda quando Aidan, famoso por suas iluminuras. O filme se baseia na lenda do Livro de Kells (aqui também).

Clapham Junction (inglês, 2007): filme para a televisão (britânica), narrando uma única noite de verão londrina, de histórias aparentemente separadas porém interligadas pelos personagens. Os protagonistas, quase todos homossexuais, de diferentes ambientes, idades e classes, sofrendo algum tipo de repressão ou violência.

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