cultura da participação – resenha e opinião

Quando me encontrei com o livro A Cultura da Participação, no começo de 2013, não esperava que fosse lê-lo apenas 2 anos depois, já não mais trabalhando com mídias sociais diretamente e, sim, enquanto professor em um curso de comunicação. No entanto, seu conteúdo ainda é bastante atual.

Clay Shirky discorre sobre o excedente cognitivo – de maneira quase extremamente positivista. Seus textos são ao meu ver, rasos. É perceptível o receio do autor em ir a fundo de verdade em seu debate, já que se utiliza de algumas comparações arriscadas e não parte de nenhum conceito anterior de cultura. Contudo, e isso considero um esforço válido, seu conteúdo é acessível e suas analogias e exemplos são de fácil absorção, partindo de uma estrutura a fim de explicar situações separadas por séculos, por exemplo.

Buscando validar sua teoria, ele reúne uma série de acontecimentos ao redor do mundo de diversas épocas diferentes, traça um paralelo ou, muitas vezes, extrai daquilo apenas o que precisa e, assim, coordena sua argumentação. Isso fica evidente quando discorre sobre o caso do Gin Craze, na Londres do século 18, traçando um paralelo (esse é um dos pontos que considerei arriscado e anacrônico em sua essência) com o tempo livre gasto em frente a televisão no pós-guerra.

No mais, sua teoria é necessária, interessante e poderosa, porém senti falta, em todo o livro, de algo a mais, de uma evolução do conteúdo além de relatos comprovando a existência do excedente cognitivo. Mais do que discorrer sobre acontecimentos que “deram certo”, ele poderia ter debatido o tema mais ampla e realisticamente, não tão positivista como se apresenta a quase todo instante.

Shirky deixa transparecer um espírito sonhador e acredito que essa seja a essência de seu livro. Vale a leitura, desde que se faça leituras complementares, buscando conceitos diversos de cultura e outros teóricos da comunicação que tratam do mesmo tema de maneira mais concreta.

Publicado em resenha | Marcado com , , , | Deixe um comentário

sobre nossa cidade, cultura e singulares

Quando falamos em Foz do Iguaçu, precisamos especificar de qual delas: a Foz para os turistas ou a que nós, cidadãos iguaçuenses, vivemos.

O discurso local mais comum é o da [co]existência de grande representatividade cultural e várias etnias vivendo em paz. No entanto, nas ruas é bem diferente.

Nossa cidade carece de investimentos em cultura como política pública de desenvolvimento, com interesse direto no benefício para a população. E quando digo cultura como política pública não falo somente em eventos e ações sazonais, sejam públicas ou privadas, mas sim de incentivo e otimização de espaços públicos por parte do governo, como museus, bibliotecas, acesso à internet wifi em praças, espaços onde as pessoas possam visitar, conviver, produzir e interagir.

Apenas para citar um exemplo de Foz: temos uma biblioteca que fecha às 14h, não abre aos fins de semana e sua infraestrutura precisa urgentemente de adequações. Onde estão as ações de incentivo para se frequentar tal espaço? E, indo além, onde estão os projetos focados em bairros e populações afastadas do grande centro?

Acredito que há, em nossa cidade, um distanciamento tanto por parte do governo como da população, onde ambas as forças não assumem suas responsabilidades e se omitem. Porém, existem aqueles que buscam ir além de apenas sobreviver a esse mar de ociosidade cultural e desenvolvem projetos que são pequenos respiros para quem tem a oportunidade de vivê-los: revistas acadêmicas sem fins lucrativos, grupos de teatro, mostras de cinema alternativo, entre alguns [ainda poucos e tímidos] movimentos, surgindo em diversos pontos da cidade.

Ao meu ver, estamos longe de ser a Foz que falam que somos, e reduzir esse abismo, entre a Foz-simbólica e a Foz-real, é como enxergo a essência desses pequenos respiros. Precisamos assumir nossa responsabilidade como cidadãos e entender, atuar, produzir, interagir com nossa cidade e todas as suas diferenças, com todo o potencial que ela tem para oferecer.


texto originalmente publicado na edição de outubro/2014 da revista 100 Fronteiras, de Foz do Iguaçu.

Publicado em nada aqui | Marcado com , | Deixe um comentário

morte

Meu primeiro contato com a Morte foi aos 4 ou 5 anos de idade.

A lembrança é ainda nítida, do piso de madeira lustrado, do móvel antigo com uma tv preto e branco, das prateleiras abarrotadas de enciclopédias cuja única função era acumular poeira, do sofá velho onde tantas vezes me sentei pra folhear as revistas em quadrinhos do meu tio.

Mas nenhuma memória é tão poderosa quanto aquela, das pessoas andando, cabisbaixas, ao redor de um grande caixão, naquela mesma sala da estante, da tv e dos quadrinhos.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo e não entendia por qual razão colocaram minha vó naquela grande caixa. Como toda criança curiosa

            porém insistentemente chamada por adultos como intrometida

caminhei pela sala sem entender nada. Por que a vovó está numa caixa? E a resposta veio seca Por que ela morreu. Não me lembro, até hoje, de quem foi a frase mas lembro de ser retirado no mesmo momento da sala e, então, o abismo da memória se colocar no caminho e mais nada daquele dia vir à mente.

Aquela pergunta feita por mim até hoje contrasta com outra imagem que tenho de minha vó materna. Alguns dias antes, na cozinha daquela mesma casa da estante, da tv e dos quadrinhos, me recordo de uma palmada na bunda seguida de um vá brincar menino. Mais uma vez, a curiosidade confundida com intromissão, me leva ao quintal, com meus primos mais velhos e desinteressados nas brincadeiras de uma criança de 4 ou 5 anos.

Levou muito tempo para a Morte aparecer em minha vida novamente, quase vinte anos. Um tio, o qual me deu meu terceiro emprego. Seu coração falhou, mas me lembro que sua opinião não falhava nunca.

Um outro tio, em um acidente de carro. Poderia ter sido mais próximo dele, mas adolescentes parecem não ter tempo para qualquer coisa que não seja seu próprio mundo.

Depois minha bizavó, já com idade avançada.

Um amigo da época da faculdade, mesmo distante estávamos razoavelmente próximos.

Com o tempo, aceitei a Morte não mais como uma fatalidade, mas como parte de mim, como parte de cada ser. Nossas células morrem todos os dias. Nossas ideias também. Memórias, tecidas no vácuo de nossas emoções, morrem no precipício do Tempo, não o mecânico, do relógio. Mas o Tempo ditado pelo invisível.

Todo dia morre um pedaço de mim, quando a impotência toma controle e esbarra minha vontade nos muros da burocracia. Quando vejo dor. Quando causo a dor.

Mas, na contramão do desespero, a morte não é o fim. É parte de um ciclo sem volta, do

            agora

que insiste em fugir de nosso controle.

E sempre que me vejo naquela sala, da estante, da tv e dos quadrinhos, lembro que aquela história não terminou, mas continuou na minha. Aquela vida morreu à luz de tantas outras, e a Morte, implacável e dona do tempo, deixa sempre seu rastro nas lembranças que se alteram com a retórica da vida adulta.

A Morte não é intrometida, ao contrário do que muitos adultos pensam sempre que Ela insiste em se mostrar mas, sim, curiosa.

            Por que a vovó está numa caixa?

Publicado em conto | Deixe um comentário

pressa

Vejo passos, acelerados, em busca de um ponto final porém encontrando apenas

sentenças

vazias e incompletas, deslumbradas em sua própria existência.

Semáforos no vermelho ignorados quando claramente querem ser notados, a fila no banco pedindo paciência recebendo apenas suspiros intolerantes, a senhora com problemas no joelho e sacolas pesadas, deixada para trás. Lerda. Preciso chegar logo.

Onde?

Vejo a pressa.

A todo momento uma enxurrada de desinformações, de frases opacas de sentido, enveredadas nas falas e nos gestos, fluídas nas relações. Vejo desafeto. Por que estão no meu caminho? Preciso chegar logo. As relações não são mais vividas, mas esperadas. Não esperava isso vindo de você. As expectativas são a nova moeda de troca, onde não importa o que vai acontecer, mas a decepção a ser experimentada de uma relação sequer iniciada. Me feriram. Não. Mas vão, tenho certeza.

O novo combustível da humanidade: a decepção insaciável, saboreada diariamente a cada momento de frustração quando a própria pressa não consegue suplantar o tempo. Não o do relógio, inventado pelos homens, mas aquele, o tempo, que quando chega não temos como fugir.

O agora não existe, nunca existiu. Existe só o Antes de você as coisas eram diferentes. Depois de você as coisas mudaram. Antes buscava a decepção, depois me tornei ela.

A tentativa vã de sanar as próprias expectativas de um futuro já conhecido. Viver a mesma frustração do outro.

Goze logo, tenho que acordar cedo.

A busca incessante por mudar um final do qual se desvia apenas os olhos, mas não os passos.

Sou a pressa.

Preciso atravessar a rua mas o sinal não abre. A fila não anda. Lerda. Goze logo, preciso acordar cedo.

Todos os dias.

—–

revisado por Luiz Henrique Dias.

Publicado em conto | Deixe um comentário

sobre coisas legais no youtube

A internet é um paraíso de coisas legais, isso todos estamos cansados de saber. Porém, o que muita gente não sabe (e muita mesmo) é a quantidade de conteúdo bacana e gratuito que tem por aí.

Já comentei aqui sobre o fabuloso documentário em seis partes, O Poder do Mito, de Joseph Campbell. Tem um outro, muito bom, de Marshall McLuhan, O meio é a mensagem, que estou terminando de ver para falar sobre. Porém, há uma infinidade de filmes – estadunidenses, neozelandeses, brasileiros, irlandeses – no youtube, de graça.

Deixo abaixo uma brevíssima lista de alguns filmes, alguns que gosto muito e outros que gosto pouco. =)

—–

Os famosos e os duendes da morte (brasileiro, 2009): assisti recentemente por indicação de uma aluna. A história é sobre um garoto do interior do Rio Grande do Sul, escapando pela internet da rotina entediante de sua cidade(zinha). Não chega a ser uma obra prima, porém vale a história, contada em uma melodia quase monótona, guardando para o seu quase-final um trunfo confuso e não tão inebriante.

50 maneiras de se dizer fabuloso (neo zelandês, 2005): o filme é divertidíssimo e ao mesmo tempo, denso. Trata sobre gênero na adolescência de uma forma delicada e apaixonante, com personagens encantadores e fortes.

Orações para Bobby (estadunidense, 2009, baseado em livro homônimo de 1995): filme produzido apenas para a TV, exibido um dia antes do oscar de 2009. Conta a história de Bobby, um garoto homossexual que sofre as consequências de uma família extremamente religiosa, principalmente sua mãe. Uma das mais tocantes cenas que já vi está em seu final, com um turbilhão de emoções difíceis de se processar.

O segredo de Kells (animação belga, 2009): queria assistir há algum tempo, até que encontrei no youtube. Doce, colorida, fabulosa em sua trilha sonora, personagens e narrativa, conta a história de um garotinho, Brendan, que vive sob a tutela de seu tio, um abade, cuja atenção é toda dedicada a construção de um imenso muro que os protegerá dos bárbaros. Brendan nunca saiu da abadia e não conhece o mundo do lado de fora, porém tudo muda quando Aidan, famoso por suas iluminuras. O filme se baseia na lenda do Livro de Kells (aqui também).

Clapham Junction (inglês, 2007): filme para a televisão (britânica), narrando uma única noite de verão londrina, de histórias aparentemente separadas porém interligadas pelos personagens. Os protagonistas, quase todos homossexuais, de diferentes ambientes, idades e classes, sofrendo algum tipo de repressão ou violência.

—–

Publicado em resenha | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário

fanzines, aulas e a criação de si

É difícil esconder a alegria de ver, após quase um semestre letivo inteiro, o resultado dos trabalhos entregues. Desde o início de agosto, alunos de jornalismo e publicidade dedicam parte de seu tempo na produção de um fanzine.

este zine permite ao leitor montar a história da maneira que ele bem entender, trabalhando com cards compostos por texto e imagem

As exigências: o zine não poderia morrer em sala de aula, precisaria ser distribuído e o tema não poderia fugir da região trinacional evitando, a todo custo, o turismo. Nada de Cataratas, nada de Itaipu, nada de falar de quem já é visto, ouvido e repetidamente aplaudido. O desafio: embrenhar-se nas ruas da cidade e descobrir os vagalumes, encontrar aqueles que são abafados pelos grandes discursos já legitimados.

Nessa primeira fase, Bruno Oliveira, grande amigo e ser humano incrível, conversou com as turmas envolvidas explicando, brevemente, conceitos sobre construção de narrativa no caminhar da cidade, sobre o contraste social, das verdades impostas e dos vagalumes, ofuscados pelos grandes holofotes. Uma série de textos, links e referências variadas foram enviadas para ajudar no processo de construção do discurso, no caso, o zine de cada grupo.

Precisariam, ainda, apresentar os requisitos básicos de uma publicação, com uma linha editorial e diagramação elaboradas, plano de custos, público e distribuição, além de não apenas adaptar o conteúdo para o digital: o zine precisaria traduzir sua subjetividade para as mídias sociais. Alguns arriscaram perfis no instagram enquanto outros adaptaram conteúdo da web para o impresso e alguns foram um pouco além, com uma proposta ousada de um tumblr com conteúdo sobre e para a terceira idade ou ainda um vídeo.

aqui, prezaram pela experiência sensorial, colando uma lixa no zine, simulando uma prancha de skate

Os fanzines foram aqui utilizados como ferramenta pedagógica, objetivando facilitar o ensino dos fundamentos necessários para se desenvolver uma publicação e utilizar a oportunidade para incentivar o interesse pela produção autoral, livre de amarras e impedimentos. Usei como base esse, esse e esse livro.

Também ocorreram vários debates, traçando paralelos entre o eixo editorial e a produção underground e, inclusive, a produção absurda de conteúdo na internet e como ela se relaciona com o mundo impresso (essas já não tão novas formas de se relacionar com o mundo, mas que ainda são pouco exploradas em sala de aula).

Agora, após as monitorias e a entrega final, eles caminham para a fase de distribuição e interação com o público para, no final do semestre, serem avaliados em uma banca, mostrando o que aprenderam, entenderam e como enxergam suas produções no cenário local.

neste zine, o aluno, paraguaio, empreendeu um discurso sobre o espanhol, sobre influências advindas do guarani e prezou por um layout simples, com contrastes fortes

Muito além, acredito que incentivar os estudantes a produzirem conteúdo autoral, interagirem com sua rotina de uma maneira diferente da qual estão habituados, olhando para a cidade com olhos críticos, buscando enxergar além do dos preconceitos e valores já estagnados no tempo e do que é legitimado por outros, pode contribuir mesmo que timidamente com a formação enquanto cidadãos críticos e atuantes, cientes de sua posição no mundo e do potencial criativo de rebater e recriar o que nos é imposto, por todos os lados e de tantas diferentes maneiras.

Publicado em aula | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

edição e design – resenha e opinião

Em minhas aulas de Produção Gráfica procuro, ao máximo, questionar os alunos sobre a atual importância e relação do impresso com o digital, em uma [não tão nova] realidade onde as pessoas podem não apenas receber informação, mas também produzir, interagir, opinar, reconstruir e reconfigurar significados em “tempo real”.

No entanto, alguns conceitos do impresso se tornam imprescindíveis para a criação e desenvolvimento efetivo de qualquer obra. Quando meu cunhado (grande designer) soube que eu seria professor, me indicou o livro Edição e Design, sendo este meu primeiro contato com o autor Jon V. White.

A obra é uma das publicações mais fantásticas e divertidas com as quais já tive oportunidade de interagir. White faz considerações importantes sobre não apenas a criação em si, mas sobre aspectos muitas vezes ignorados pela maioria dos criativos ao redor do globo: o ambiente, o indivíduo, a tridimensionalidade do projeto.

Na página das resenhas do livro no Skoob encontrei uma breve resenha de um grande amigo, o Tarcízio Silva (recomendo a leitura de seu blog), da qual cito uma passagem:

“Desfile” é o capítulo mais suculento. Infelizmente, a maioria dos livros de design gráfico ignoram um aspecto importantíssimo: a sequencialidade entre as páginas como recurso estético ou narrativo. White diz: “o modo pelo qual os observadores reagem a uma página é afetado pela memória daquilo que acabaram de ver, assim como a curiosidade pelo que vem em seguida. Hábeis comunicadores exploram essa quarta dimensão – o tempo – para dar ‘ritmo’ ao produto e incluir surpresas, altos e baixos emocionais.” Utiliza essa metáfora do “desfile” e compara o passar das páginas a várias outras artes e performances.

uma das páginas do livro, especificamente a capa de início do capítulo “cor” (que inclusive é a única parte no livro inteiro que possui cor e um papel diferente do restante da publicação)

White se utiliza de uma linguagem despojada e exemplifica, através de desenhos claros, aquilo que diz com palavras, estabelecendo a relação da qual tanto comenta entre imagem e texto.

Alguns de seus capítulos são bastante breves, como “A Publicação”, um dos primeiros do livro. Há outros muito mais longos, como “Desfile” e “Imagens” e que exploram com riqueza vários caminhos e maneiras de se construir o layout, passando por alinhamento da página como um todo, da imagem em relação ao texto, das legendas em relação às imagens, do espaço vazio enquanto instrumento de intensificação da leitura e até das diversas maneiras de se utilizar uma mesma imagem conforme a intenção da matéria.

Edição & Design vale cada página de leitura e merece ser revisitado regularmente.

E uma curiosidade: White disponibilizou algumas de suas obras como Domínio Público. Vale conferir!

Publicado em resenha | Marcado com , , | 1 comentário